Afeganistão: Holanda sai da guerra e tira tapete à NATO

Afeganistão: Holanda sai da guerra e tira tapete à NATO

Retirada das tropas levou à queda do governo de Balkenende e criou um problema à NATO. Holandeses controlavam zona sensível.

Afinal os militares holandeses no Afeganistão vão mesmo voltar para casa neste Verão. Apesar de o prazo da retirada das tropas ter estado na origem da demissão, no sábado, do governo holandês, o primeiro-ministro Jan Peter Balkenende não conseguiu prolongar a missão holandesa da NATO para depois do prazo acordado: os 1950 militares começam a voltar a casa em Agosto deste ano, como previsto.

"Se nada acontecer entretanto, [a intervenção] vai acabar", assegurou ontem Balkenende à televisão holandesa. Uma decisão que, acredita o governante, vai afectar a imagem internacional do país. "No momento em que a Holanda diz que será o único e primeiro país a abandonar a guerra até ao final de 2010, isso vai levantar dúvidas em outros países e isso deixa-me muito triste", defendeu Balkenende.

O contingente holandês, que integra a missão da NATO no Afeganistão há quatro anos, tem sob a sua alçada uma das regiões-chave da defesa: Uruzgar, no sul do Afeganistão. Com a retirada holandesa, o receio é de que a província fique vulnerável à infiltração dos talibãs vindos de Marjah, um dos bastiões que os rebeldes controlam há dois anos. "Se os holandeses saírem do país vamos ter mais dificuldades em Uruzgan", defendeu ontem o governador da província, Asadullah Hamdam, em declarações à Associated Press. Por isso, apelou: "Pedimos aos holandeses para que fiquem."

Para já, o contingente australiano, que trabalha na mesma região, já avançou à NATO que não está disposto a colmatar a brecha deixada pela retirada holandesa do final do ano. Isto apesar de os Estados Unidos terem anunciado um reforço de 30 mil militares no país. Barack Obama, que escolheu o Afeganistão como uma das prioridades do seu mandato, tem tido dificuldade em vencer o cepticismo de grande parte dos seus aliados europeus em enviar reforços para o Afeganistão.

Uma guerra no sapato No caso holandês, depois de terem morrido 21 militares no conflito, as opiniões sobre a presença do país no Afeganistão dividiram--se. Este fim-de-semana, as diferenças entre o primeiro-ministro Balkenende, do partido democrata-cristão (CDA), e o vice-primeiro-ministro e ministro das Finanças, Wounter Bros do Partido Trabalhista (PvDA) extremaram-se. Na origem estava a promessa do executivo, feita em 2007, de retirar do Afeganistão no final deste ano.

À vontade do primeiro-ministro de ceder ao pedido da NATO para que a Holanda prolongasse a sua missão até Agosto de 2011, Wounter Bros respondeu com o pedido de demissão.

"Foi agendado um plano para a retirada dos nossos homens do Afeganistão. Os nossos parceiros não quiseram respeitar esse compromisso e, com base nessa decisão, decidimos demitir-nos", anunciou o trabalhista.

Para Balkenende, apoiar a NATO era uma "questão de responsabilidade internacional", mas o argumento não convenceu os membros da coligação tripartidária e o governante apresentou a demissão à rainha Beatriz no sábado. "Onde a confiança falta, as tentativas para chegar a um acordo estão condenadas a falhar à partida", justificou.

Futuro Depois do abandono do PvDA da coligação, o CDA do primeiro-ministro e a União Cristã vão continuar no governo até às eleições antecipadas, que devem realizar-se até Junho. Esta é a quarta vez em oito anos que o governo de Balkenende cai. E, segundo as últimas sondagens, é a oposição quem fica a ganhar: a opinião pública também não quer continuar no Afeganistão. Mas, mesmo sem Afeganistão, segundo o editorial do diário "NRC Handelsblad", a crise política já estava instalada: "A missão holandesa no Afeganistão foi a gota de água, mas esta situação podia ter sido provocada pelos cortes orçamentais ou pela compra de material de guerra."

Agora, os analistas prevêem que o partido da Liberdade, conhecido pelas políticas anti-imigração, seja o principal beneficiado nas próximas eleições.

Fonte: Informação
Data: 22/02/2010

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