Sábado, 26 de Maio de 2012
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Joslain Nkoumba
2011/15/03 9:11
Para o presidente da União Budista em Portugal, a reforma é um acto de protecção e o Tibete precisa "um líder político que assegure a unidade do país e a sua identidade cultural"
A carta onde o Dalai Lama, o líder espiritual do Tibete, formaliza o desejo de abandonar as suas funções políticas foi ontem lida no parlamento exilado em Dharamshala, na Índia: "Nenhum sistema de governo pode assegurar estabilidade e progresso se depender de uma pessoa, sem apoio e participação do povo no processo político. O governo de uma só pessoa é anacrónico e indesejável", refere o Dalai Lama na mensagem enviada aos membros da 14ª Assembleia dos Deputados do povo tibetano.
"Como é a linha dos Dalai Lama que tem garantido a liderança política no país durante quase quatro séculos, poderá ser difícil para os tibetanos em geral, e especialmente para aqueles que vivem no Tibete, encarar e aceitar um sistema político que não seja liderado pelo Dalai Lama. Por isso é que nos últimos 50 anos tentei de várias maneiras aumentar a consciência política das pessoas e encorajá-las a participar no nosso processo democrático", explica o líder espiritual na sua carta.
De acordo com um um comunicado do gabinete do Dalai Lama, o assunto vai começar hoje a ser debatido no parlamento. A decisão final sobre a sua posição vai demorar alguns dias.
Pedindo para que o processo "não demore mais" do que a sessão legislativa agendada por dez dias, esta não é a primeira vez que o Nobel da Paz pede para que o libertem das suas responsabilidades políticas. Até agora o parlamento tem rejeitado essa vontade, argumentando que não haveria um substituto, mas agora poderá haver outras condições. O primeiro-ministro tibetano, Samdhong Rinpoche, sugeriu ontem em conferência de imprensa que os desejos do líder podem ser tidos em conta: "Esta decisão da Sua Santidade Dalai Lama é final. Não há volta a dar", afirmou Rinpoche aos jornalistas.
Caso o parlamento aceite o pedido do líder espiritual, o primeiro-ministro poderá ser incumbido da tarefa de liderar o movimento tibetano. Mas o afastamento de uma referência na luta pela democracia e pela independência no Tibete poderá também refrear os planos da China em impor o seu próprio Dalai Lama ao povo tibetano, tal como o fez no caso Panchen Lama. O governo da República Popular da China afirma que Qoigyijabu é a actual reencarnação do 11º Panchen Lama, enquanto o governo tibetano no exílio defende que Gedhun Choekyi Nyima, detido pelo governo chinês em 1995 até 2008 e, desde então, nunca visto em público, é o verdadeiro Pachen Lama.
Paulo Borges, presidente da União Budista em Portugal, disse ao i que o desejo de reforma do Nobel da Paz não é uma surpresa e "deve-se também à situação política que o povo tibetano vive. Não seria conveniente os tibetanos ficarem à espera de uma criança que renascesse e tivesse de ser educada. A situação do povo tibetano exige um líder político que assegure a unidade do país e a sua identidade cultural em vez de esperar pela reencarnação do futuro Dalai Lama", explica. "A China, como sabemos, nomeou um Pachen Lama fantoche, e há uns anos o governo chinês fez um decreto ridículo, dizendo que, a partir de agora, os monges não podiam reencarnar sem autorização de Pequim. Tudo isto configurava a possibilidade de quando este Dalai Lama morresse, poderem inventar uma reencarnação fantoche do Dalai Lama pró-chinesa. Estas medidas do Dalai Lama são um acto de protecção ao povo tibetano e não de abandono", conclui.
No próximo domingo, o povo tibetano em exílio vai eleger um novo primeiro-ministro. Um dos três candidatos - Lobsang Sangay, Kasur Tenzin Namgyal Tethong e Tashi Wangdi - irá suceder a Samdhong Rinpoche e, caso a vontade de Dalai Lama seja atendida, tornar-se-á no líder político máximo do país.
Fonte: I
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