Sábado, 26 de Maio de 2012
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Helenio Jeronimo
2010/17/03 9:52
As decisões israelitas mostram que Telavive gere o processo na região como se guiasse com uma narsa. Só que do outro lado estão os dirigentes palestinianos mais sérios na procura da paz
Sou um grande admirador de Joe Biden. O vice-presidente é um defensor infatigável dos interesses dos EUA no estrangeiro, por isso custa-me que, na sua recente viagem a Israel, quando o governo do primeiro-ministro Netanyahu lhe esfregou na cara novos planos habitacionais no disputado sector de Jerusalém Oriental, o vice-presidente tenha perdido uma oportunidade de enviar publicamente um sinal forte. Deveria ter fechado o seu notebook com uma pancada seca, ter-se metido no avião e regressado a casa, deixando a seguinte nota manuscrita: "Mensagem dos EUA ao governo israelita: os amigos não deixam amigos guiar quando estão bêbedos. E neste instante vocês estão a guiar com uma grande narsa. Acham que podem constranger o único aliado que têm no mundo para satisfazerem um objectivo político interno sem que isso tenha consequências? Mostra que perderam todo o contacto com a realidade. Contactem-nos quando estiverem sóbrios. Precisamos de nos ocupar de construir o nosso país."
Teria sido uma mensagem útil, por duas razões: em primeiro lugar, o que os israelitas fizeram foi reforçar uma dúvida que muita gente tem em relação à equipa de Obama: que força tem? A última coisa de que o presidente precisa, numa altura em que tem de se confrontar com o Irão e a China - para não falar do Congresso - é dar a ideia de que o mais fiável dos aliados dos EUA podem fazer dele gato-sapato.
Em segundo lugar, Israel precisa de ser chamado à realidade. Continuar a construir colonatos na Cisjordânia ou até blocos de habitação em Jerusalém Oriental é pura loucura. A expansão urbana de Israel põe em dúvida que os israelitas alguma vez se disponham a aceitar uma capital palestiniana nos bairros árabes de Jerusalém Oriental. Israel já penetrou numa porção considerável da Cisjordânia. Se quiser continuar a ser uma democracia judaica, a sua única prioridade deveria ser obter um acordo com os palestinianos que lhes permitisse trocar esses blocos habitacionais por uma área equivalente de território israelita e usufruir dos benefícios - económicos e de segurança - do termo do conflito.
Infelizmente, não foi o que aconteceu. Há nove meses que o enviado especial dos EUA ao Médio Oriente, George Mitchell, tenta encontrar uma maneira de relançar as conversações de paz. Os palestinianos não confiam em Netanyahu, e este tem sérias dúvidas quanto às garantias que as chefias divididas dos palestinianos possam oferecer. Seja como for, Mitchell levou os dois lados a concordarem com "conversações de proximidade": os palestinianos ficam em Ramalá e os israelitas em Jerusalém, com Mitchell em vaivém entre uns e outros, a uma distância de 30 minutos. Ao fim de uma década de conversações directas, é este o ponto a que chegaram as coisas. Os assessores de Mitchell e de Netanyahu concordaram informalmente que, se os EUA conseguissem fazer avançar as conversações, não haveria anúncios de construções. Netanyahu concordou, dizem responsáveis dos EUA, mas deixou claro que não se poderia comprometer com nada publicamente.
Que aconteceu? Biden chegou um dia depois de terem começado as conversações de proximidade e confrontou-se com o anúncio, por parte do ministério israelita do Interior, de que o país queria construir 1600 novos fogos em Jerusalém Oriental. Netanyahu disse ter sido ultrapassado pelos acontecimentos, o que provavelmente é verdade, já que a medida parece estar inscrita na competição entre dois dos ministros sefarditas de direita. É bem a medida do quanto Israel vê o apoio dos EUA como dado adquirido.
Sabe-se que Biden - um verdadeiro amigo de Israel - alertou os seus interlocutores israelitas para as consequências da decisão sobre a segurança das tropas dos EUA no Iraque, no Afeganistão e no Paquistão e para a paz na região. Só um ministro de direita, como Netanyahu, está em posição de fazer um acordo quanto à Cisjordânia. As políticas que Netanyahu tem aplicado ajudam os palestinianos a fortalecer a sua economia e a instalar as forças de segurança recém- -reconstituídas, que estão a ajudar o Exército israelita a conter o terrorismo. Os dirigentes palestinianos Mahmud Abbas e Salam Fayyad são os mais verdadeiros e sérios na tentativa de procurar uma solução que Israel alguma vez poderá encontrar. O Hamas parou os ataques lançados a Israel a partir de Gaza. Agora que os árabes sunitas estão obcecados com a ameaça iraniana, a sua vontade de trabalharem com Israel nunca foi tão grande, e a melhor maneira de isolar o Irão é tirar do baralho de Teerão a cartada do conflito palestiniano.
Podemos estar perante uma verdadeira oportunidade, se ao menos Netanyahu optar por a agarrar. O dirigente israelita precisa de decidir se quer fazer história ou ser, mais uma vez, uma mera nota de rodapé.
Fonte: Informação
Data: 17/03/2010
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