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ANC, o partido do povo, celebra um centenário de luxo

ANC, o partido do povo, celebra um centenário de luxo

O tiro de partida para os três dias de celebrações dos 100 anos do ANC (Congresso Nacional Africano) foi dado por uma tacada de golfe.

Houve quem notasse a ironia de um partido que foi o defensor dos direitos dos negros escolher um território mais conotado com os brancos. Ou quem apontasse que a escolha reflecte o cada vez maior elitismo do partido no poder.

O partido terá de celebrar sem a presença do seu líder mítico, Nelson Mandela, que aos 93 anos está demasiado fragilizado em termos de saúde. De resto, as celebrações foram planeadas para serem rigorosamente controladas pelo Presidente Jacob Zuma, que tentará, em Dezembro, ser novamente eleito líder do partido, face a uma cada vez maior oposição interna.

O ANC, o mais velho movimento de libertação de África, encontra-se cada vez mais dividido e é vítima do seu próprio sucesso. Apesar de ter vencido todas as eleições nacionais desde o fim do apartheid em 1994, o seu prestígio junto da população caiu devido a vários escândalos de corrupção. Há quem acuse o partido de arrogância: Zuma chegou a declarar que o ANC vai estar no poder "até Jesus descer à Terra".

Mas a desigualdade económica, nota a revista Time, aumentou na África do Sul depois do fim do apartheid: os programas de redistribuição beneficiaram uma elite e a economia continua dominada por brancos. Os números do desemprego são impressionantes: uma taxa de 36% e que chega a 70% entre os jovens. Milhares de sul-africanos negros continuam a viver nos mesmos bairros de lata em que viviam antes de 1994, muitos a ganhar menos de 1,25 dólares por dia, a partilhar os mesmos "táxis" que enchem até parecer rebentar pelas costuras, a trabalhar em casas de brancos. Metade da população vive com 8% do rendimento nacional, dizem os sindicatos.

O país tem das maiores taxas de crime violento do mundo, e das maiores taxas de infecção pelo vírus da sida.

A estas desigualdades somam-se agora as questões políticas, que colocaram mesmo a África do Sul no top 10das zonas com potencial de instabilidade pelo grupo Eurasia, indica o canal de notícias económicas Bloomberg.

A razão é o populismo dos seus líderes. Zuma já representou um salto neste sentido após o mandato de Tabo Mbeki, precocemente interrompido em 2008. O líder de 69 anos, com várias mulheres e que gosta de se apresentar como defensor dos pobres e oprimidos, vê agora o desafio chegar do ainda mais populista Julius Malema, 30 anos, que tem defendido a nacionalização das minas como resposta para o problema de desemprego jovem do país (uma ideia que agrada a muitos jovens pobres mas deixa, por outro lado, em choque muitos investidores estrangeiros).

Malema foi recentemente condenado pelo ANC a uma suspensão do partido durante 5 anos, mas continua a aparecer nos jornais, defendendo por exemplo que dentro de dez anos vai haver empregadas domésticas brancas no país.

Na África do Sul parece estar a acontecer o caminho contrário ao dos mercados emergentes que vêem a política amadurecer, comentou Anne Fruhaf, analista do grupo Eurasia, ao Bloomberg: aqui, "a política está cada vez mais a atrapalhar o crescimento económico."

"Vão ser 12 meses em que ninguém vai governar", disse à Time Fiona Forde, autora de Uma Verdade Inconveniente, um livro sobre Malema.

Um gasto de 9,6 milhões

O ponto alto das celebrações do centenário do ANC ocorre hoje em Bloemfontein, na igreja onde, há 100 anos, activistas e intelectuais negros criaram o ANC para reagir à sistemática segregação. Esperam-se 100 mil visitantes e mais de 40 Chefes de Estado para o discurso de Zuma.

Há ainda um jantar de gala, espectáculo de dança, e outro momento-chave, em que Zuma acende uma tocha na igreja à meia-noite. Para que este momento acontecesse, o ANC comprou esta igreja com dinheiro público, mais concretamente, 9,6 milhões de euros de dinheiro público, indica o diário britânico The Guardian.

São episódios destes que começam a enfurecer alguns sul-africanos. "Não há estradas, parques, escolas ou empregos", queixa-se Tumelo Lekhooe, 20 anos, que ora é varredor de ruas ora fica desempregado. "Os políticos do ANC usam as suas ligações para ganhar os contratos, e depois gastam o dinheiro consigo próprios", queixa-se.

Fonte: Público
Data: 09/01/2012

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