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BP aceita pagar 16 mil milhões de euros mas isso é apenas o começo

BP aceita pagar 16 mil milhões de euros mas isso é apenas o começo

Presidente diz que este é "um passo importante" para reparar os danos causados à população do golfo do México. Petrolífera suspende pagamento de dividendos.

A petrolífera BP concordou em estabelecer um fundo de compensação no valor de 20 mil milhões de dólares (16.300 milhões de euros) para pagar indemnizações aos afectados pela maré negra no golfo do México. Ontem, no final de uma reunião de mais de duas horas na Casa Branca - a primeira vez em que o Presidente norte-americano e os dirigentes da petrolífera conversaram frente a frente - Barack Obama confirmou que o dinheiro será depositado numa conta caucionada, movimentada por uma comissão independente.

"Este é um passo importante no processo de recuperação das populações do golfo, que estão desesperadas por ajuda", disse o Presidente. "E é apenas o começo", acrescentou, notando que a petrolífera será responsável pelo pagamento de todos os custos decorrentes do acidente. A BP gastou até agora mais de 1500 milhões de dólares em operações de limpeza e numa primeira ronda de indemnizações.

BP não paga dividendos

No encontro de ontem estiveram o presidente da BP, Carl-Henric Svanberg, e o director executivo, Tony Hayward, actualmente um dos homens mais hostilizados na América: os seus comentários de que o petróleo derramado era "uma gota no oceano" viraram a opinião pública contra si. No final, Svanberg anunciou que a empresa vai suspender este ano o pagamento de dividendos aos accionistas, outro dos alvos da contestação.

Mas o público está também descontente com o Governo. Uma sondagem da Associated Press-GfK, publicada ontem, revelou que 52 por cento dos americanos não estão satisfeitos com a forma como Obama está a gerir a crise (quase a mesma apreciação que obteve George W. Bush dois meses depois do furacão Katrina). No geral, a taxa de aprovação do desempenho de Obama mantém-se nos 50 por cento.

Obama procurou responder à ansiedade da opinião pública na comunicação oficial a partir da Sala Oval, um local simbólico e que confere sempre gravidade à mensagem do Presidente. Definindo o derrame como uma "epidemia", antecipou que o combate à catástrofe ambiental pode levar "meses e mesmo anos", mas prometeu que a sua Administração não só não vai desviar-se desse objectivo, como se certificará que a petrolífera paga todos os prejuízos.

A avaliação dos danos ambientais e das medidas necessárias para restaurar os habitats ficará sob a responsabilidade de uma nova comissão, encabeçada pelo secretário da Marinha, Ray Mabus. Será ela que irá redigir o plano de longo prazo para a recuperação do golfo.

Obama aproveitou o discurso para incentivar os americanos a envolverem-se numa "nova missão nacional", que exige uma mudança de comportamento para que o país ultrapasse a dependência dos combustíveis fósseis e avance para uma economia assente em energias alternativas, limpas e renováveis.

Já se esperava que o Presidente usasse a oportunidade para reabrir o debate em torno da nova lei de energia, aprovada pela Câmara de Representantes em Junho de 2009, mas que o Senado tem resistido em discutir. A tentativa dos senadores John Kerry e Joe Lieberman de lançar o debate de uma proposta negociada com o republicano Lindsey Graham parece condenada ao fracasso: com eleições intercalares no horizonte, será impossível firmar acordos para votar a lei.

Os comentadores notaram que, nas palavras dirigidas ao Congresso, Obama não demonstrou a mesma firmeza usada contra a BP - o Presidente foi deliberadamente vago, não endossou o projecto de lei do Senado e manteve a expressão "alterações climáticas" ausente na sua comunicação.

A oposição republicana reagiu de imediato ao discurso, acusando o Presidente de pretender tirar dividendos políticos e, mais uma vez, alargar a intervenção do Governo, sob a capa da resposta à catástrofe ambiental. "A Casa Branca quer encarar este derrame como uma oportunidade para promover a sua agenda em Washington, mas os americanos querem saber qual é o plano do Presidente para resolver esta crise", criticou o líder da minoria no Senado, Mitch McConnell.

No seu espaço de comentário na Fox News, a ex-governadora do Alasca e antiga candidata à vice-presidência Sarah Palin defendeu a continuação da exploração de petróleo em off-shore, criticando a aplicação de uma moratória de seis meses à actividade das plataformas de grande profundidade. "O Presidente está errado. Precisamos de perfurar mais poços de petróleo. Ou recorremos às fontes convencionais de energia, ou vamos ter de nos pôr de joelhos perante a Arábia Saudita, a Venezuela e a Rússia", disse.

A fúria da opinião pública contra a BP pode justificar, em parte, a subida no tom com que o Presidente fala sobre a petrolífera. A mudança na retórica quase criou um incidente diplomático com o Reino Unido, forçando Obama a telefonar ao primeiro-ministro, David Cameron, assegurando que os seus comentários mais duros denunciavam a "frustração" dos americanos face à catástrofe ambiental, independentemente de "identidades nacionais".

Fonte: Público
Data: 17/06/2010

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