Sábado, 26 de Maio de 2012
Helenio Jeronimo
2010/24/06 10:10
O duelo no Soccer City teve um final feliz: a Alemanha tem Özil, o continente africano tem o Gana .
O estádio deteve-se uns segundos a olhar para os placards gigantes e explodiu com o resultado do Austrália-Sérvia: 2-1. Quando apareceu a tabela classificativa do Grupo D já toda a gente sabia que a Alemanha e o Gana estavam apurados para os oitavos-de-final do Mundial e muitos já haviam emparelhado o futuro destas selecções. O Gana defrontará os Estados Unidos, enquanto a Alemanha tem um duelo marcado com a Inglaterra, naquela que será a reedição da final de 1966.
Foi isso que ganhou aquele golo de Özil, aos 60". Parou de pé esquerdo e rematou com o mesmo de forma simples. Como se o tempo tivesse parado para todos menos para si. Os colegas abraçaram-no um a um. Aí ninguém pensou no hat-trick de Hurst, ninguém se lembrou do 4-2 de 1966. Aí valeu apenas o elemento surpresa da selecção alemã, que às vezes até se esquece que não trouxe Ballack para a África do Sul.
No Soccer City, a noite terminou com um final feliz. Derrotado por 0-1, o Gana era a equipa mais feliz do mundo. Enquanto os jogadores passeavam a bandeira do seu país pelo relvado, o mundo falava deles. A única equipa africana que sobreviveu à fase de grupos do primeiro Mundial africano. A única equipa africana que também o tinha conseguido em 2006, na Alemanha, precisamente onde o Gana nasceu como selecção de futebol. A primeira equipa africana a qualificar-se para este Mundial. A equipa africana que os sul-africanos veneram a partir de agora.
O jogo de ontem foi como um jogo de xadrez disputado entre dois profissionais. O Gana de branco, a Alemanha de preto. Um desafio de futebol com largura, com habilidade (mais dos ganeses), com determinação (mais dos alemães), mas sem um fim à vista. Se, aos 25", Kingson deteve a arrancada de Özil, 25 minutos depois, Neuer travou o impulso de Asamoah. As pedras iam desaparecendo lentamente do tabuleiro, enquanto em Nelspruit a Austrália acreditava com sucessivos xeques ao rei da Sérvia.
No Soccer City, o jogo terminou com o momento proporcionado por Özil, filho de emigrantes turcos, um esquerdino (uma arma e uma limitação) que desenvolve o jogo alemão uns metros mais à frente do que o fazia Ballack. Özil andou algum tempo na sombra de Diego no Werder Bremen. Com a saída do médio brasileiro para a Juventus, a sucessão foi natural. Por brincadeira (ou talvez não), os colegas do Werder Bremen passaram a chamar-lhe Messi. Na selecção, Joachim Löw, órfão de Ballack e de qualquer outro que pudesse carregar a Maanschaft às costas, passou a ter à sua disposição o substituto possível, o único jogador capaz de um dia destes poder ser comparado aos grandes nomes que já desfilaram por outros mundiais (Schuster, Magath, Rummenige, Overath, Beckenbauer...).
Na fluidez do seu jogo, a Alemanha sente falta de pelo menos alguns deles. Na África do Sul, a Alemanha já foi uma trituradora, um fracasso e um remate de Özil. Ao Gana, melhor nota artística, falta-lhe o discernimento que sobra à rígida equipa alemã. Que tal uma troca?
Fonte: DN
Data: 24/06/2010
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