Chegou o momento de ver o Iraque "como país e não como uma guerra"

Chegou o momento de ver o Iraque "como país e não como uma guerra"

Sentimento entre os soldados que ontem deixaram o país era de alívio. Mas há dúvidas sobre se a retirada total até 2011 é o melhor plano.

"Ganhámos! Ganhámos! Acabou! Trouxemos democracia ao Iraque!", gritou um soldado americano ao atravessar a fronteira com o Kuwait na madrugada de ontem, segundo o site da televisão NBC. Talvez tenha sido um acto isolado: por mais que a Casa Branca, os pivôs das televisões americanas e os soldados repetissem que o momento era "histórico", o sentimento geral das últimas tropas de combate a retirar do Iraque, na noite de quarta-feira, não era de triunfo, mas de alívio. Alívio por deixarem o Iraque para trás.

Até final de Agosto deverão sair mais seis mil militares, de forma a cumprir a meta prometida pelo Presidente Barack Obama de reduzir o contingente até aos 50 mil soldados e de terminar todas as operações de combate até essa data. A partir de 1 de Setembro, a Operação Liberdade Iraquiana (Operation Iraqi Freedom) será rebaptizada Operação Nova Madrugada (Operation New Dawn) e as tropas que permanecerem no terreno terão como missão treinar e apoiar as forças militares iraquianas.

É uma transição que tem vindo a ser preparada há meses, por isso, avisava anteontem o embaixador americano no Iraque, Christopher Hill, falando em Washington, "não é como se fosse acontecer grande coisa no dia 31. Tudo vai parecer igual ao dia 30 de Agosto".

O início do fim

As imagens dos soldados a viajar para sul, em direcção à fronteira do Kuwait, nos últimos dois dias, têm sobretudo um peso simbólico: marcam o início da contagem decrescente para a retirada completa da presença militar americana, agendada para o final do próximo ano, e, portanto, o começo do fim de uma guerra que foi impopular desde o primeiro dia, custou a vida a mais de 4400 soldados e durou mais do que a II Guerra Mundial ou a guerra civil americana.

Christopher Hill, que cessou funções como embaixador, disse que o Iraque tinha agora a responsabilidade de formar um governo estável e que os Estados Unidos tinham a responsabilidade de "ver o Iraque como um país, e não como uma guerra".

A retirada deixa a Administração Obama perante um paradoxo: com eleições intercalares à porta, em que o seu partido se arrisca a perder a maioria no Congresso, e com sondagens a mostrar que os americanos estão fartos das guerras no Afeganistão e Iraque, Obama só tem a ganhar, internamente, com a retirada militar; por outro lado, não quer dar a imagem de que os Estados Unidos estão a abandonar o país.

Gerir o equilíbrio entre estas duas ambições, aparentemente contraditórias, é delicado.

Fonte: Público
Data: 20/08/2010

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