Sexta-Feira, 25 de Maio de 2012
Joslain Nkoumba
2011/28/04 9:40
O Governo voltou a "congelar" os juros dos Certificados do Tesouro (CT) a subscrever em Maio, deixando, pelo segundo mês consecutivo, de acompanhar a evolução dos juros das Obrigações do Tesouro,
que continuam a renovar máximos históricos, impulsionados pelo receio de reestruturação da dívida grega. Mais do que o congelamento das taxas para as subscrições de Maio, o IGCP, o instituto que gere a dívida pública nacional, admite que a fixação se vai manter por mais tempo. Na instrução que sustentou a fixação das taxas de Abril, o IGCP alegou o facto do mercado secundário, que os CT deveriam seguir, "não estar a funcionar de modo eficiente", falando mesmo em "mercado disfuncional". Na instrução de ontem, para as taxas de Maio, o organismo avança que "enquanto se mantiverem as condições de mercado, apenas poderão ser realizadas [subscrições] às taxas ilíquidas de juro anual garantido de 6,8 por cento para uma aplicação a 5 anos, e 7,10 por cento para uma aplicação a 10 anos".
Apenas as aplicações entre o primeiro e o quinto ano vão render um pouco mais, já que a taxa sobe para 2,1 por cento, contra 1,95 por cento de Abril.
Apesar de elevadas, as taxas dos CT estão agora longe dos máximos fixados no mercado secundário. A decisão de congelar as taxas dos CT, que já atraíram mais de mil milhões de euros, vem frustrar a expectativa de quem esperava fazer aplicações a taxas mais altas, mas não prejudica as aplicações anteriores, uma vez que as taxas são fixadas apenas para as novas subscrições a realizar em cada mês.
No mercado secundário, a escalada dos juros da dívida portuguesa continua, uma situação gerada pela falta de informação relativamente ao montante e condições (taxa de juro) da ajuda financeira a conceder ao país, mas fundamentalmente por causa do receio de que a Grécia terá de avançar com a reestruturação da sua dívida. As OT a dois anos corrigiram-se ontem ligeiramente, para os 11,945 por cento, o mesmo nível que os da Irlanda. Já as juros das obrigações gregas a dois anos superaram ontem os 25 por cento, o que denuncia a forte probabilidade que os investidores atribuem à reestruturação da dívida grega, apontando para um perdão ou haircut da ordem dos 30 por cento.
Se a Grécia avançar para a reestruturação, o mercado acredita que Portugal e a Irlanda deverão seguir o mesmo caminho, num momento em que começa a aumentar a pressão do mercado sobre Espanha. Na opinião de alguns economistas ouvidos pelo PÚBLICO, a União Europeia está a falhar no combate à crise da dívida e, se não forem tomadas medidas mais eficazes, o futuro do euro pode estar em causa.
Nesta linha de pensamento estão João Loureiro, professor da Faculdade de Economia do Porto, que manifesta alguma esperança em que do Concelho Europeu de Maio possa sair alguma solução abrangente, que garanta o futuro do euro.
O ex-ministro das Finanças Bagão Félix não tem dúvidas de que Europa cometeu "erros imperdoáveis" na forma como geriu a crise da dívida, desde logo ao subvalorizar e demorar a reagir. O economista relembra o "pecado original" da Europa: "Não há união monetária sem união fiscal ou, pelo menos, sem maior coordenação das políticas orçamentais".
Para João Rodrigues, economista a investigador do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, a escalada dos juros revela a crescente aposta dos mercados na reestruturação da dívida, o que, por sua vez, é o sinal do "fracasso institucional de toda a zona euro". A forma como a UE resolveu a crise - impondo "planos de austeridade com condições draconianas" - transformou problemas de liquidez em problemas de insolvência. E, avisa, vai chegar a Espanha e contagiar toda a zona euro, a menos que haja "uma intervenção política decisiva". Rosa Soares e Ana Rita Faria
Fonte: Publico
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